Cancelamento Virtual – cultura do ódio

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22/02/2021 14h27
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Hoje nas redes sociais se tem presenciado diversos famosos e influenciadores digitais serem cancelados, ou seja, excluídos por pessoas que não concordam com o seu comportamento, é como se deixassem de existir na vida delas com o uma forma de punição. Ser cancelado significa que a pessoa fez algo de errado na ótica de quem está seguindo, o erro deixou de ser humano, não é mais tolerado, e é imputado ao cancelado pelo cancelador uma punição danosa como ato de educar. É um ato de violência à vida pessoal, social profissional, é uma desconstrução.

É uma cultura de ódio, se alguém não faz algo que considero certo, tenho o direito de julgar, condenar e executar. Parece que voltamos ao velho oeste, um mundo dominado pelo gatilho da rapidez da comunicação virtual. Está forma agressiva não leva a estruturação de uma sociedade civilizada, mas a cultura dos bárbaros.

Psicanaliticamente pode-se analisar que estamos vivendo o que Freud denominou de “Mal estar da Civilização” em que os humanos não são bons por natureza, somos seres instintuais (sexual e agressivo) que precisam serem desnaturalizados pelo afeto amorosos para tornarmos humanos. É o afeto amoroso, oriundo da desnaturalização do instinto reprodutivo que constituirá a pulsão de vida, o instinto agressivo que sua desnaturalização só pode se transformar em violência quando não bem direcionado para os fins de defesa, o que Freud chamou de Pulsão de morte. Eros e Thanatos vivem disputando espaço o tempo todo, isto faz com que o homem não seja feliz.

O desenvolvimento dos afetos depende do meio em que vivemos, se for um meio equilibrado e amoroso Eros pode predominar, se for violento vence Thanatos, é o que está acontecendo no mundo pós moderno. O Brasileiro que era um povo conhecido pela amorosidade, acolhedor, alegre, está sendo engolido pelo discurso de ódio que o incitam a seres marionetes do mal para satisfazer o desejo insano de um comandante.

Freud em outro texto memorável “Psicologia das Massas” ele aborda o fato de que os humanos precisam de um líder para seguir, pois somos seres de relações, que um adulto cuida de um infante e este fica totalmente submetido a este Grande Outro, esta imago fica internalizada, e estes protótipos infantis nos fazem a buscar outras pessoas que se encaixam neles. É um processo de identificação.

Seguindo esta linha de pensamento pode-se dizer que as pessoas agem hoje de um modo identificatório, assim são os clubes, torcidas de futebol, sociedades, e hoje o grande campo é a internet. O campo virtual provoca um isolamento, não tem discussões, debates, argumentações, cada um tem a sua única visão de mundo. É a cultura da unidade, não faz mais conjunto. De um lado as pessoas ficam confortáveis, supostamente protegidas pelo anonimato e acredito que posso qualquer coisa, se empodera de um falso Self no qual ele mesmo acaba por acreditar.  Por outro lado, se afastam cada vez mais das relações humanas, não aceitam o diferente, e querem se sentirem pertencentes tendo poder, neste caso de cancelar alguém para se sentir o seu poder imaginário. Este ato reforça a sua busca de identidade nos iguais e acaba ocorrendo a manipulação de massa. Isto significa que o cancelador com o seu poder imaginário de poder cancelar está sendo usado por um sujeito manipulador, controlador. O cancelador pode ser um cancelado também quando ele não mais responder o que esperam dele.

Esta cultura sem ética só aponta para a fragilidade egóica do sujeito que não consegue lidar com a realidade e se colocar enquanto um sujeito que é dono do seu próprio desejo.

Não existe uma regra e uma verdade para todos, a verdade é de cada sujeito e uma sociedade e um povo se desenvolve pelas diferenças, a unidade faz com que a vida vire pó.

 

Araceli Albino, presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo,  é Doutora em Psicologia pela Universidad Del Salvador (Buenos Aires, Argentina). Presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo – SINPESP.  Psicóloga (Faculdades Integradas de Uberaba). Psicanalista Didata; atividade clínica desde 1982. Pós-graduação na PUC – “Psicanálise e linguagem”. Especializações em: Psicoterapia/Psicodinâmica de adultos e adolescentes; Especialização em:  Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea; Professora e Coordenadora do curso de Formação em Psicanálise do Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas.

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